Oulipo (?!)

segunda-feira, julho 18, 2016 , 0 Comentários


Quando ouvi pela primeira vez esse termo fiquei extremamente curiosa, cruzei com ele em uma aula de francês e de imediato fiquei interessada. Sabe o que é Oulipo? Não? Pois não se espante! Apesar dessa coluna ser sobre gêneros literários Oulipo não é um gênero, está mais para um movimento literário originado na Franca. Ficou curioso? Vem conhecer isso direito.

Um grupo de poetas franceses se reuniu em 1960 e juntos decidiram criar o Oulipo – Oficina de Literatura Potencial. Eles acreditavam que os autores estavam muito presos a regras de gramática, vocabulário e as próprias regras da língua. Para ir contra isso os poetas decidiram criar um novo jeito de escrever, que consiste basicamente em adicionar algumas novas restrições aos textos.
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Primeiro Grupo de Poetas Oulipianos.
Como assim? Por exemplo, um dos nomes desse “movimento” George Perec, escreveu o livro La disparition (1969) inteiro sem utilizar a letra “e” (no Frances a letra é a vogal mais utilizada, trazendo isso para o português seria como escrever um livro inteiro sem usar a letra a).
Constrangimentos, como os autores preferem chamar, são essas regras que motivam o escritor a criar sem se preocupar com o sentido e focar na estrutura do texto. Por mais que a primeira vista isso me lembre um pouco do parnasianismo (movimento literário que tem como principal a métrica e estética de poemas) o Oulipo trata a literatura como um jogo, mas sem deixar de fora a emoção e o sentimento presentes na poesia.
1302709602_858255b0cfApesar da ideia de escrever obedecendo esses constrangimentos pareca ser extremamente limitador, os oulipianos acreditam que o efeito é exatamente o contrário. Segundo eles, escrever com esse tipo de regra é um grande incentivo para o autor,  a ideia de ter que se
concentrar nas regras estruturais  faz com que o autor se livre da própria censura e escreva livremente.
Uma das coisas que mais me impressionou no movimento foi o livro escrito por Raymond Queneau, ele escreveu o maior livro do mundo usando apenas dez sonetos. Cada soneto tem 14 versos que o leitor pode re-ordenar em novos poemas. A obra se chama Cem Mille milliards de poèmes e como o próprio autor chamou, é um livro de literatura combinatória. A ideia do Oulipo se espalhou pelo mundo rapidamente e apesar de ser um pouco inusitada, está viva até hoje!
O que eu mais gosto na ideia do Oulipo é como criar parece realmente ser mais fácil. E a melhor forma de mostrar essa dinâmica para vocês é com exemplos! Selecionei para vocês alguns exercícios do Oulipo para quem ficou com vontade de treinar ou só de ter uma ideia melhor de como isso funciona:

Abecedário

Texto em que a inicial de cada palavra sucessiva segue a ordem alfabética.
Exemplo:
“Ah, beijei-a com doçura e fervor. Gostaste? Há incontáveis jeitos linguados, muitas nuances ocultas. Paixão! Quantos revivificantes sabores terá um voluptuoso xodó? Zilhões.”

Lipograma

Texto em que é suprimida uma letra específica.
Exemplo:
(a) De modo ferino, desmontou seus podres sentimentos, ordenou-os, e viu o que fê-lo ser um demônio: ódio.

S+7 (Criado por Jean Lescure)

Dado um texto qualquer, deve-se mudar cada substantivo pelo sétimo encontrado depois dele em um dicionário (S+7).
Exemplo:
“Peguei um ônibus no ponto. Paguei o motorista com meus últimos centavos. O ônibus estava vazio, exceto por uma mulher muito bonita e um velhaco sorridente. Um bom momento para ler um livro, até um homem subir no veículo e colocar um som alto. Foi uma viagem irritante.”
Resultado com o S+7
“Peguei a onomatopeia no pôquer. Paguei a muamba com meus últimos centígrados. A onomatopeia estava vazia, exceto por um multimilionário muito bonito e um velório sorridente. Um bom monge para ler uma loa, até um hominídeo subir no veleiro e colocar um sonambulismo alto. Foi um vibratório irritante.”

Literatura de definição 

Em um enunciado dado, altera-se o vocábulo significante (substantivo, adjetivo, advérbio) por uma de suas definições no dicionário. Esta operação repete-se sucessivamente a cada novo enunciado obtido.
Exemplo: O cachorro correu atrás da gata borralheira.
O homem desaforado correu atrás da mulher caseira.
O esposo que se comporta de modo desavergonhado correu atrás da esposa e da mulher do caseiro.
Gostaram de conhecer essa ideia? O Oulipo não é exatamente um gênero literário, nem um movimento (são as palavras deles), mas eu achei super interessante por ser um jeito divertido de exercitar a linguagem.
Fontes: AquiAquiAquiAqui



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